Pra quem ainda não sabe, o Papa morreu. Mas não, não, não se assuste nem se apavore, você provavelmente só não leu, ouviu ou viu muita mídia nesses últimos dias se ainda não sabia. Nem se assuste ao ligar a televisão amanhã, quando as atenções do mundo todo começam a ser catapultadas para o Conclave. Assim, sem mais nem menos, você pode se ver no meio de guerras políticas fervorosas e especulações inacreditáveis.
O enterro foi na última sexta-feira e ainda seguem mais alguns dias de missas fúnebres. Depois disso começa o Conclave, espécie de festa íntima para a qual todos os cardeais são convidados e cujo resultado é um novo Papa. Ainda que com direito a champanhe no final, é uma festinha careta e não há esperanças de que assim deixe de ser. Explica-se: algumas das regras da festa foram alteradas pelo próprio e conservador João Paulo II e a maioria dos convidados foram ordenados cardeais por ele mesmo.
Existe também dentro do Vaticano um consenso de que o novo Papa deve seguir os passos de JPII. Mudanças o mínimo radicais lhes parecem perigosas para a igreja católica, embora atrelado a essa eleição não esteja apenas o destino da igreja, mas também o destino de boa parte do globo. Incluindo-se aí o também conservador e republicano EUA, nós aqui, os tupis-guaranis-latino-americanos e a Europa. Seja você quem for, o Papa provavelmente tem muita influência em sua vida.
Pra ficar nos lugares comuns, o próximo Papa vai ter que lidar com a questão dos métodos contraceptivos, com a debandada dos fiéis para as religiões evangélicas e orientais, com a questão do casamento de padres, com as conquistas da mulher na sociedade, com os avanços científicos e uma porrada de outros assuntos ainda ignorados pela igreja ou que recebem vista grossíssima do Vaticano. A dura verdade é que, ainda que desejemos um Papa mais aberto e flexível a discussões como essa, estamos longe dessa realidade.
Tão longe quanto provavelmente estamos de termos um Papa latino-americano ou mesmo africano. Se você tem acompanhado alguns dos regorjeios da mídia nesses dias, deve ter percebido como se bate na tecla de que os cardeais gostam da idéia de ter um pontífice dessas nacionalidades. Mas esqueça, Karol foi uma grande exceção e ainda assim está marcado para a história como um grande símbolo POP, fora isso o novo Papa é italiano. Negar isso e esperar por um Papa brasileiro é como esperar por uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Também se segure nas cadeiras, porque o novo pontificado vem com a força e apoio das idéias conservadoras americanas. Tio Bush - aquele mesmo, contra uma série de liberdades na terra da liberdade - tem sido um grande co-idealista das políticas ortodoxas do Vaticano e continuará a ser. Assim pensando é fácil observar que países como o nosso, sob forte influência católica e americana ficam numa situação estranhíssima.
Estranho na medida em que a sociedade não comporta mais essas idéias. Sorte a nossa que o Brasil vem tomando rumos bem mais liberais com a administração PTista. Já aprovamos a pesquisa com células-tronco, somos referência no tratamento contra a AIDS e já estamos até conversando sobre a união civil de homossexuais (a despeito do desacordo de Severino, nosso atual símbolo POP - também conhecido como Presidente da Câmara - e com o apoio de milhões de pessoas, dentre elas algumas que deram 1 milhão a Jean no Big Brother).
Daqui pra frente muitas das idéias e atos cotidianos de boa parte do planeta estarão atrelados às políticas do novo Papa. Seja ele quem for, tem uma responsabilidade enorme quanto aos rumos que muitos devem tomar. Com a provável nova administração conservadora veremos um pontífice que consolidará o fim da igreja católica e uma sociedade que, se não deixar de acreditar em Deus ou não deixar de se espiritualizar, debandará inevitavelmente para religiões que apóiem o desejo de qualidade de vida dessa nova geração.
O novo Papa, além de ser POP, também tem que saber lidar com a diversidade global. Viver num mundo globalizado implica em cada vez mais facilmente aceitar as enormes diferenças que existem entre povos e pessoas. O pontífice deverá prezar por isso, entender isso e se não apoiar isso tudo, ao menos não atrapalhar o surgimento do orgulho racial ou ideológico de vários grupos até hoje marginalizados.
Esse próximo Santo Padre tem que entender a vida de seus fiéis e reconsiderar muitas das idéias que estão levando ao afastamento destes da igreja. Ele tem que renovar a igreja para que milhares de batizados hoje insatisfeitos possam novamente se espiritualizar e viverem ao lado de uma religião que entenda as necessidades modernas e as conquistas irreversíveis do mundo. Sobretudo, mais até do que saber como lidar com a mídia e como passar mensagens aos habitantes do globo, ele deve entender que, se não flexibilizar a igreja católica, estará levando ela a um fim próximo. E o apocalipse ao que tudo indica não está tão longe.
Não precisamos de mais um padre para ser lembrado em sua morte como articulador de grandes e maravilhosas mudanças na fé católica, contudo representante de um levante conservador e até retrógrado da sociedade.
So, let the party begin!