quinta-feira, 30 de agosto de 2007

O Fantasma do Barão

Como está sendo doída essa construção do Barão. Já se foram várias semanas de ensaios e laboratórios. Um processo delicioso, trabalhando com duas crianças de um talento absurdo. Não poderia ser mais divertido.

As improvisações fluíam maravilhosamente. Já era possível entender a lógica do Barão. E aí eu recebo o texto. E todo mundo se reúne pra primeira leitura. E desde então eu já não sei mais quem ele é. As suas falas, suas poucas falas não se encaixam mais.

As gravações começam na próxima semana. Minhas tomadas, estou aqui agradecendo por serem só no final do mês, enquanto me pergunto onde é que ele foi parar. Parece não haver mais lógica nele, a sua postura não funciona, dizer aquelas coisas não faz o menor sentido.

Prenuncio de uma noite às claras, silêncio, uma bebida quente e a cabeça enfiada no texto. O que me preocupa são as crianças. Quero dizer, se não houver lógica nesse Barão, se não for óbvio e verdadeiro seu ódio, então nada funcionará.

Peguei-me lendo Kusnet em busca de alguma resposta. Não achei. Peguei-me procurando um ódio verdadeiro. Não achei. Chega a parecer que sou o cavaleiro de coração puro. Não sou. E dói.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Mário

Bortolotto:

Dias atrás um Brother que fez seminário comigo me escreveu (um comentário aqui no blog) dizendo que não conseguia entender como é que um cara que sempre tirava A em tudo e que podia ter escolhido qualquer profissão mais fodona (médico, advogado, engenheiro) foi se transformar logo em "autor de teatro". Ele até brincou dizendo que a vida não é só "dormir em uma rede numa kitchenete e andar por aí num Fiat Uno". Respondi que ele havia acertado em quase tudo, menos no "Fiat Uno" (nem isso eu consegui comprar). Eu entendo o que ele quis dizer e sei que foi na melhor das intenções e com certa perplexidade, é claro, mas é que eu optei, só isso. Eu sei que podia fazer qualquer outra coisa, e podia ganhar muito dinheiro inclusive, fazendo outra coisa. Mas é que eu gosto do que faço.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Passou

Aquele barulhinho começou a me incomodar. No silêncio da sala onde só se ouvia a voz broxa do professor aqueles estalos começaram a destoar. Paro de ler. É bala, só pode ser. Bala no finalzinho, quando a impaciência já é tanta que o sujeito não pode mais aguentar e a arrebenta nos dentes. Olho pro lado e lá está ele, mastigando a bala, largado na cadeira, os olhos baixos, naquele mesmo jeito de sentar de sempre. É só o que tem feito nos últimos quase quatro anos? Poderia até ser dejà-vu, mas não, não é isso, eu sei que não é a mesma coisa, sei que já é outro dia, outro tempo, mas lá está ele, mastigando o maldito restinho de bala. A mesma. O pacote está ao lado do estojo, em cima do fichário. Sempre está lá. O sabor mudou nesse tempo todo: veio a fase da uva verde, depois a do preto super forte e agora lançaram a melancia. Tudo quanto é lugar fede a bala de melancia agora. Daqui algum tempo lançam outro sabor de cheiro ainda mais duvidoso e ele larga esse. Eu gosto do cheiro de melancia. Anos atrás adorava o cheiro de uma amiga que usava um perfume que me lembrava a fruta. Anos atrás, nem tantos, mas longe. E ele continua lá, a mesma cena, sempre, há quase quatro anos ele está naquela cadeira roendo a impaciência do final da bala.

Quero voltar ao livro, mas antes acabo olhando toda a sala. Ninguém mudou nada. Meu chão cai. Todos ainda sentam no mesmo lado da sala. Os grupinhos ainda são os mesmos. As pessoas usam as mesmas roupas; agem da mesma maneira. Quantas vezes eu mudei nesses quase quatro anos? Quanta coisa aconteceu? Na nova vida que levo, de trabalho, de teatro, de mudanças contínuas, da felicidade por trabalhar com prazer finalmente, olho para os lados para constatar que nada está mudado. Triste constatação. Aquelas pessoas, algumas as quais amo muito ou já amei, elas continuam as mesmas, tentando mostrar como novo o que têm sido nos últimos quase quatro anos, desde que as conheci. Meu coração pesa. Por que eles não evoluíram junto comigo? Por que ninguém amadureceu? Eu sinto isso, sei que hoje sou melhor, mais ainda sei que posso estar anos-luz à frente daqui em diante, mas eles ficaram parados no meio do caminho. Quase quatro anos: quando foi que a gente se perdeu? Quase quatro anos a mais e onde vou estar? Não será nessa sala, sentado lendo o Mutarelli pra fugir da aula chata. Certamente não. Mas tenho medo; medo de que eles ainda estarão lá e no silêncio que brota do desânimo unânime ele estará ali do lado, mordendo impaciente o final da bala. Esperando o que?

O professor libera para um intervalo. Merda, isso quer dizer que ele vai empurrar essa bosta com o projetor até as 11. Fecho o livro, guardo na mochila e subo pro pátio da cantina. Nada é o mesmo de antes. O que vejo não são as mesmas pessoas. A Atlética que ficava ali do lado agora vai dando espaço e forma a uma nova livraria. Um grupo de chatos desocupados discute numa bancada os rumos da universidade pública. A fila da cantina continua grande, os preços ainda mais altos. Não há sequer um rosto familiar. Me divirto. Passo horas com o olhar perdido nas cabeças raspadas e no gorrinho azul de crochê. Aí vem a melancolia. Caramba, eu vou sentir falta desse lugar! A garganta seca, o peito pesa, os olhos se inundam. As mudanças têm sido tantas e tão intensas que não tinha ainda sentido essa prévia falta. Mas cá ela está. Quase quatro anos e nisso tudo se porá fim. É a primeira vez durante toda essa jornada que me pega de surpresa a insegurança. O que será de mim? O que será desse lugar? O que será deles? Sigo de volta pra sala na minha incerteza. Eu vou mudar. Eu já mudei e ainda vou mudar mais. Já conquistei, mas nem de perto é tudo o que ainda vou conquistar. Eu não vou ficar nesse lugar, não quero esse lugar, não quero os caminhos a que me levam esse lugar.

Me sento novamente. O professor volta a falar na sua voz broxa sobre a diarréia de Bill Gates ao ser processado. Desisto. Abro de novo o Mutarelli. Cheiro de merda. Ouço novamente estalos. Olho pro lado e lá está ela, linda. Sorri e me pede desculpas por incomodar. Está tudo bem. Me lembro do Leopardo do Lampedusa: é preciso que tudo mude para que as coisas continuem como estão. É assim. Eu vou mudar.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

E esse durex no seu óculos?

Ah, sim. Andam comentando muito por aí sobre o movimento Cansei, encabeçado pela OAB-SP e apoiado pelas classes tupinambás mais abastadas.

Afinal de contas, é isso gente, é disso que o país precisa: VAMOS FAZER UM MINUTO DE SILÊNCIO! Nada pode fazer mais sentido do que isso.

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